segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Mãe

Certa feita, no momento correto da minha vida, meu coração se encheu de uma alegria tão grande que comparo ao nascimento da minha Luísa. Isso aconteceu quando meu pai Oxossi confirmou ser o dono do meu ori, abriu seus braços e chamou-me a ele. Foi com muito amor e sem receios que firmei meu compromisso com ele diante dos búzios da minha Yá. No dia seguinte, mesmo faltando dois meses para minha iniciação, cortei o meu longo cabelo, passei a me recolher e o sentia cada vez mais próximo. Como se fossemos nos aproximando dia a dia para que a acolhida fosse perfeita. Tudo transcorreu bem, ele reinou com uma força admirável e eu, como que parindo a nova vida, chorei ao saber do primeiro seu ilá.

De lá para cá passaram-se 7 meses. Dias de dedicação e sacrifícios, já sabidos por mim, quando decidi tornar-me uma yawo. Mas apesar de todo esse transbordamento de felicidade, com o tempo, um vazio passou a se abrir, lento e sutil, porém notável. Não existe filha só de pai, por mais extremoso que ele seja.

Até que um dia, em profunda concentração dançando o xirê antes do orô de vários Orixás, eu a escutei, só nos meus ouvidos. Como que anunciando, minha mãe cantou somente para mim. Meu coração sorriu. Eu sorri. Por mais que os búzios ainda não houvessem confirmado, meus sentidos já haviam trago a certeza da sua maternidade.

Opará cantou maternal para o meu coração. Mostrou-me sua espada, para que eu entendesse todas as coisas que sempre me confundiram. E eu chorei ao abraçar Oxum. Depois disso, dormi contente e cuidei da minha pequena Luísa com o amor redobrado que advém do ventre dessa mãe graciosa. Banhei-me e, encantada, comprei flores e perfumes. Com minha delicadeza montei um pequeno presente adornado pelas minhas mãos só para mostrar-lhe o quão feliz fiquei com nosso reconhecimento.


Oxum Laboré

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